Principal suspeita para morte de criança no DF, desafios na internet mataram ou feriram 56 menores no Brasil desde 2014
- Hugo Delleon

- 15 de abr. de 2025
- 3 min de leitura
Segundo a família, Sarah Raíssa Pereira de Castro, de 8 anos, inalou desodorante e teve uma parada cardiorrespiratória ainda em casa. No domingo (13), ela teve morte cerebral.

A morte de uma menina no Distrito Federal fez a polícia suspeitar que ela tenha sido mais uma vítima de desafios divulgados em redes sociais. Uma irresponsabilidade criminosa que tem provocado tragédias.
Sarah Raíssa Pereira de Castro tinha 8 anos. Foi encontrada desacordada pelo avô no sofá da sala. Estava deitada em cima de uma almofada encharcada de desodorante. Ao lado, um frasco vazio e o celular. Segundo a família, ela inalou desodorante e teve uma parada cardiorrespiratória ainda em casa. O avô chamou o Samu, que a levou ainda com vida para o Hospital Regional de Ceilândia. Ficou internada na UTI. No domingo (13), teve morte cerebral.
O médico Alexandre Nikolay alerta que o desodorante tem várias substâncias químicas, que podem chegar rapidamente ao pulmão e comprometer a respiração:
"Ocorreu progressivamente uma asfixia. Você pode ter ainda um broncoespasmo, como reação direta do processo inflamatório. Então, o brônquio se fecha, semelhante a uma asma, só que tem uma reversão bem mais difícil do que na asma, por ser causado por uma substância química que bateu direto ali na mucosa pulmonar”, explica o pediatra.
Nesta segunda-feira (14), a escola onde Sarah estudava fechou em sinal de luto. A Polícia Civil abriu um inquérito para investigar a causa da morte da criança. O delegado do caso disse que a principal suspeita é que ela tenha participado de um desafio na internet. O celular dela vai passar por uma perícia.
"Nós verificamos e constatamos ali, em conversas informais com jovens, que muitos deles já tinham conhecimento desse tipo de desafio. Já tinham visto vídeos com essa temática, mas a investigação vai ter avançar para que a gente possa identificar e excluir esse tipo de conteúdo na internet”, diz Walber Lima, delegado da 15ª Delegacia de Polícia.
A família contou à polícia que a menina estava vendo um vídeo sobre esse desafio. Segundo o delegado, os envolvidos poderão responder por homicídio duplamente qualificado. A pena pode chegar a mais de 30 anos de prisão.
"Nós vamos poder localizar essas pessoas que criaram esse vídeo e que também divulgaram. A polícia judiciária hoje já possui mecanismos para identificar criminosos que atuam às sombras das redes sociais”, afirma o delegado Walber Lima.

A juíza Vanessa Cavalieri, da Vara da Infância e Juventude do Rio de Janeiro, afirma que esse tipo de crime na internet tem crescido muito:
"Tem cada vez mais envolvido crianças e adolescentes tanto como vítimas quanto como perpetradores dessa violência. As redes sociais não são adequadas e não foram desenhadas para serem usadas por crianças e de forma alguma elas devem estar na internet”.
O Instituto Dimicuida, que monitora brincadeiras perigosas na internet, registrou 56 casos de crianças ou adolescentes que morreram ou ficaram gravemente feridos no Brasil desde 2014 por causa desses desafios online. O dado é usado como referência pelo Ministério da Justiça para monitorar esse tipo de violência.
A organização não governamental SaferNet, que também estuda casos assim na internet, defende que os pais e responsáveis devem monitorar o que as crianças estão vendo no celular para orientar e proteger.
"É importante que desde os primeiros contatos com a tecnologia, a criança e o adolescente sejam estimulados a dialogar sobre o que vê na internet. Entender que tipo de conteúdo é positivo, negativo, como denunciar estes tipos de conteúdos para que a gente possa atuar na prevenção”, afirma Guilherme Alves, gerente de Projetos da SaferNet.
Na noite desta segunda-feira (14), o advogado-geral da União, Jorge Messias, prestou solidariedade à família e afirmou em uma rede social que "as circunstâncias da morte de Sarah merecem rigorosa apuração e convocam novamente a refletir sobre a necessidade de um marco normativo eficiente para as redes sociais". Ele escreveu ainda que "a catástrofe reforça a necessidade de ferramentas regulatórias para prevenir e responsabilizar, de forma efetiva, os divulgadores de conteúdos falsos/maliciosos nas redes sociais, bem como as big techs, quando estas se omitem apenas para transformar desinformação em lucro".



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