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Quando as férias não descansam: exaustão acumulada faz corpo "desabar" justamente na hora de relaxar

  • Cantarely Costa
  • há 5 horas
  • 3 min de leitura

As férias, tradicionalmente associadas ao descanso e à recuperação das energias, têm se transformado em um período de sofrimento para muitas pessoas. Em vez de relaxar, trabalhadores chegam ao primeiro dia de folga exaustos, sem conseguir dormir, irritados, ansiosos e, em alguns casos, até adoecem fisicamente. O quadro, conhecido como síndrome de férias — ou holiday burnout — tem chamado a atenção de especialistas por revelar um problema que começa muito antes do início do recesso: a sobrecarga crônica de trabalho.


Segundo o professor do curso de Psicologia da Estácio, Alexandre Augusto, a síndrome não surge de forma repentina. Ela é resultado de um organismo que passou meses funcionando em estado constante de alerta e que, ao encontrar uma pausa, simplesmente não consegue desacelerar. "A síndrome de férias é muito semelhante ao burnout. A pessoa já vem apresentando sinais de estresse, de estafa, de sobrecarga. Ela começa a sentir sintomas físicos, mentais e emocionais, como cansaço intenso, insônia, alterações no padrão alimentar, irritabilidade, perda de paciência e até sintomas de ansiedade ou depressão. Quando chegam as férias, o corpo não acompanha essa mudança brusca de rotina. Ele continua funcionando como se ainda estivesse sob pressão", explica.


Na prática, isso significa que justamente o período reservado para descansar acaba sendo consumido pela dificuldade de desligar a mente e recuperar o equilíbrio físico e emocional.


Muitas pessoas passam boa parte das férias tentando recuperar um desgaste que se acumulou ao longo de meses, comprometendo a qualidade do descanso e retornando ao trabalho sem a sensação de renovação esperada.


Para o psicólogo, o erro mais comum é imaginar que basta encerrar o expediente na sexta-feira para que o corpo automaticamente entre em modo de descanso no dia seguinte. O processo, segundo ele, precisa ser gradual. "O ideal é que essa desaceleração comece cerca de 15 a 30 dias antes das férias. A pessoa deve começar a organizar a rotina, reduzir o ritmo sempre que possível e evitar uma ruptura completa de hábitos. Manter horários relativamente estáveis para dormir e acordar, por exemplo, ajuda o organismo a fazer essa transição de maneira mais saudável."


Mais do que aprender a descansar, prevenir a síndrome passa por rever a forma como se estabelece a relação com o trabalho ao longo do ano. Alexandre destaca que jornadas excessivas, cobranças constantes e ambientes profissionais desgastantes favorecem um estado permanente de tensão, que pode levar o organismo ao limite. "O corpo vai dando sinais de que está entrando em exaustão. É preciso observar como está a qualidade de vida, a saúde mental e a forma como nos relacionamos com o trabalho. Se esse freio não é colocado, o organismo entra em pane."


O especialista ressalta que o debate sobre saúde mental no ambiente profissional tem ganhado força justamente porque empresas e instituições começam a reconhecer os impactos dos chamados riscos psicossociais. Nesse contexto, discutir carga de trabalho, qualidade do ambiente e equilíbrio entre vida pessoal e profissional deixa de ser apenas uma questão de bem-estar para se tornar também uma estratégia de prevenção ao adoecimento.


Quando os sintomas já aparecem durante as férias, a orientação é não tratar o problema como um simples cansaço passageiro. Dependendo da intensidade, pode ser necessário buscar ajuda especializada. "Se predominam sintomas físicos, a avaliação médica é fundamental, porque pode haver uma desregulação fisiológica importante provocada pelo estresse prolongado. Já nos casos em que prevalecem irritabilidade, ansiedade ou sofrimento emocional, o acompanhamento psicológico ajuda a pessoa a compreender e reorganizar a forma como está lidando com essas demandas. Se os sintomas persistirem, pode ser necessária uma abordagem conjunta entre psicologia e medicina."


Para Alexandre Augusto, o principal aprendizado é compreender que férias não têm o poder de compensar meses de desgaste extremo. O descanso só cumpre sua função quando a saúde física e mental também é cuidada durante todo o ano. Afinal, esperar pelas férias para recuperar um organismo levado ao limite pode ser tarde demais para que elas cumpram exatamente aquilo para que existem: permitir que corpo e mente realmente descansem.


Cantarely Costa

 
 
 
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